Como planejar um teste de usabilidade para dispositivos médicos
Um dos erros mais comuns em projetos de dispositivos médicos é tratar o teste de usabilidade como um evento isolado.
O time desenvolve o produto, se aproxima da submissão… e então decide “fazer um teste”.
O problema é que, na engenharia de usabilidade conforme a IEC 62366-1, o teste não é o ponto de partida — é o resultado de um processo estruturado.
Sem esse processo, o teste perde valor técnico e, principalmente, valor regulatório.
Neste artigo, você vai entender como planejar um teste de usabilidade que gere evidência válida para submissão à ANVISA.
O ERRO MAIS COMUM: COMEÇAR PELO USUÁRIO
Grande parte das equipes começa o planejamento com perguntas como:
- Quantos usuários precisamos?
- Onde vamos recrutar?
- O teste será presencial ou remoto?
Essas perguntas são importantes — mas estão fora de ordem.
Antes de pensar em usuários, você precisa responder:
“Quais são os riscos relacionados ao uso do dispositivo?“
Sem isso, o teste vira uma coleta de opiniões — e não uma avaliação de segurança.
O QUE VEM ANTES DO TESTE DE USABILIDADE
Um teste de usabilidade bem planejado depende de três pilares fundamentais.
1. Identificação de perigos relacionados ao uso
A base está no gerenciamento de riscos conforme a ISO 14971.
Aqui você identifica:
- erros de uso previsíveis
- situações críticas
- possíveis danos ao paciente ou operador
Sem essa etapa, não existe critério técnico para definir o que testar.
2. Definição de tarefas críticas
Nem toda interação precisa ser avaliada.
Você deve selecionar tarefas que:
- estão associadas a riscos relevantes
- podem causar dano se executadas incorretamente
- dependem da interface ou da interação
Essas são as tarefas críticas — o núcleo do teste.
3. Construção de cenários de uso realistas
O teste não deve avaliar ações isoladas.
Ele precisa simular situações reais, considerando:
- contexto clínico
- ambiente
- pressão de tempo
- possíveis distrações
Cenários artificiais geram resultados artificialmente positivos.
COMO ESTRUTURAR UM TESTE DE USABILIDADE
Com base nos pilares anteriores, você estrutura o teste de forma consistente e defensável.
✔ Definição dos usuários
Os participantes devem representar os usuários reais:
- profissionais de saúde
- pacientes ou cuidadores
- diferentes níveis de experiência
Selecionar usuários inadequados compromete diretamente a validade regulatória.
✔ Número de participantes
Não existe um número fixo universal.
O que importa é:
- cobertura das tarefas críticas
- representatividade
- consistência dos resultados
Mais importante que quantidade é qualidade da amostra.
✔ Ambiente de teste
O ambiente deve refletir o uso real:
- hospital
- clínica
- ambiente domiciliar
Quanto mais distante da realidade, menor a validade do estudo.
✔ Critérios de sucesso
Cada tarefa precisa de critérios objetivos:
- execução correta
- tempo aceitável
- ausência de erro crítico
Sem critérios claros, não há evidência técnica consistente.
✔ Registro de erros de uso
O teste deve capturar:
- erros de uso
- quase-erros (near miss)
- dificuldades relevantes
- comportamentos inesperados
Esses dados sustentam a análise regulatória.
O QUE A ANVISA REALMENTE AVALIA
Na prática, a ANVISA não avalia apenas se você realizou um teste.
Ela avalia a coerência do processo:
- como os riscos foram identificados
- como as tarefas foram definidas
- como o teste foi estruturado
- como os resultados se conectam com a segurança
A lógica esperada é:
Risco → Tarefa → Teste → Evidência
Sem essa rastreabilidade, o estudo perde força regulatória.
QUANDO REPETIR UM TESTE DE USABILIDADE
Nem todo teste é definitivo.
Considere repetir quando:
- houver mudanças relevantes na interface
- forem identificados erros críticos
- cenários importantes não foram testados
- usuários não eram representativos
Repetir faz parte de um processo robusto — não é retrabalho desnecessário.
CONCLUSÃO
Planejar um teste de usabilidade para dispositivos médicos não é organizar entrevistas.
É estruturar uma evidência técnica baseada em risco.
Quando bem planejado, o teste:
- reduz risco regulatório
- aumenta a segurança do paciente
- fortalece a submissão
- evita retrabalho
Quando não é:
- vira apenas um documento sem valor real
Quantos usuários são necessários em um teste de usabilidade?
Não existe um número fixo. Embora existam bibliografias recomendando a partir de 6 a 15 usuários, o importante é garantir cobertura das tarefas críticas e representatividade dos perfis de usuário.
A ANVISA exige teste de usabilidade para todos os dispositivos?
A partir da publicação da RDC 751/22, a expectativa é que todos os dispositivos apresentem evidência de usabilidade proporcional ao risco.
Teste remoto é aceito?
Pode ser, desde que preserve a validade do cenário e não comprometa a análise de risco.
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